O Zorba

Você leu Zorba, o Grego? Leia! Uma vez, Zorba disse a seu chefe: "Há algo que está faltando em você, chefe. Um toque de loucura! A menos que você tenha um pouco de loucura, você não viverá."

Um pouco de loucura lhe dará outras dimensões, lhe dá poesia e lhe dá coragem suficiente para ser feliz neste mundo infeliz.

Zorba tem sua própria beleza. Kazantzakis, que criou o romance Zorba, o Grego, é um dos maiores romancistas deste século, e sofreu tremendamente na mão da igreja.

Zorba é um nome fictício, ele não é uma pessoa histórica. Quando Kazantzakis escreveu Zorba, o Grego, ele foi expulso da igreja. Ao escrever Zorba ele foi forçado: "Você deve retirar seu livro Zorba; caso contrário você será expulso." Porque não retirou o livro, ele foi expulso do cristianismo e condenado ao inferno.

Zorba é, na verdade, a própria personalidade de Kazantzakis, a qual a igreja cristã tinha reprimido, a qual ele não podia vivê-la, e a qual ele quis vivê-la. Expressou toda aquela parte reprimida de sua vida em nome de Zorba.

Zorba é um belo homem — não tem nenhum medo do inferno, nenhuma ambição pelo céu, vive a cada momento, curtindo pequenas coisas... comida, bebida, mulheres. Depois do dia todo de trabalho, ele pegará seu instrumento musical e dançará na praia por horas.

E a outra parte de Kazantzakis que ele viveu em Zorba, o Grego foi a do patrão que contratou Zorba como seu criado. Ele está sempre sentado em seu escritório, fazendo suas anotações, nunca rindo, nunca saindo e sempre sentindo profunda inveja de Zorba, porque este último ganha pouco e vive como um imperador, sem pensar no amanhã, no que vai acontecer.

Ele come bem, ele bebe bem, ele canta bem, ele dança bem. E o seu mestre, que é muito rico, fica apenas sentado à sua mesa, triste, tenso, angustiado, na miséria, sofrendo.

Zorba é a parte não vivida de toda a pessoa assim chamada religiosa.

E por que a igreja era tão contra a publicação de Zorba? Era apenas um romance; não havia nada com que a igreja pudesse se preocupar. Mas era muito claro que o livro mostrava a parte não vivida de todo o cristão, e poderia ser um livro perigoso. E é um livro perigoso.

Mas Zorba é imensamente belo. O seu patrão o manda comprar algumas coisas na cidade, e ele esquece tudo. Ele bebe e vai se divertir com as prostitutas, e de vez em quando ele lembra que parece ter passado muitos dias, mas o dinheiro ainda está com ele. A menos que todo o dinheiro tenha terminado, por que voltar? O patrão estará furioso, mas nada pode ser feito — isso é problema dele.

Depois de três semanas, ele volta — ele devia ter ficado apenas três dias — e ele não trouxe nada o que o seu patrão o havia mandado trazer. E ele vem com todas as histórias — "Que viagem maravilhosa! O senhor devia ter estado lá. Eu conheci tantas mulheres lindas... e que vinho!"

O patrão disse: "Mas e sobre as coisas que eu lhe mandei comprar? Por três semanas eu tenho sentado aqui, nervoso, lhe esperando."

Ele disse: "Quando há muitas coisas belas disponíveis, quem se preocupa com pequenas coisas? O senhor pode descontar do meu salário, e ter o seu dinheiro de volta. Eu sinto muito, eu não pude vir mais cedo. E o senhor deveria ficar feliz por eu ter vindo. O dinheiro acabou e eu tiver que vir. Mas da próxima vez que eu for, eu trarei todas aquelas coisas que o senhor me pediu."

Ele disse: "Você nunca irá novamente, eu mandarei uma outra pessoa."

Toda a vida de Zorba é uma vida de simples prazer físico, mas sem nenhuma ansiedade, sem nenhuma culpa, sem nenhuma preocupação a respeito de virtude e pecado.

Nikos Kazantzakis representa você — cada ser humano. Ele era um homem raro, mas uma vítima de todo o passado. Ele era um homem muito sensível; é por isto que a divisão se tornou muito clara; um homem muito inteligente, ele podia ver que era dividido. Isso criou uma grande tortura interna para ele.

Estar dividido contra si mesmo é o inferno, lutando contra si mesmo é uma tortura contínua. Você quer fazer alguma coisa — esta é uma parte de você — e a segunda parte diz: "Não, você não pode fazer isso. Isto é pecado."

Como você pode ficar em paz consigo mesmo? E uma pessoa que não está em paz consigo mesma não pode estar em paz com a sociedade, com a cultura, e finalmente com a existência. O individual é o verdadeiro tijolo de toda a existência.

Eu gostaria que este homem Zorba estivesse vivo em todas as pessoas, porque esta é a sua herança natural. Mas você não deveria parar no Zorba. Zorba é só o começo.

Eu gostaria que você fosse Zorba, o Grego e Gautama, o Buda juntos, simultaneamente. Zorba representa a Terra com todas as flores, o verde, as montanhas, os rios, os oceanos. Buda representa o céu com todas as estrelas, nuvens e arco-íris.

O céu sem a Terra estará vazio. O céu não pode sorrir sem a Terra. A Terra sem o céu estará morta. Ambos juntos, e uma dança envolve a existência. A Terra e o céu dançando juntos... e há risada, há alegria, há celebração.

Se um homem puder ser autenticamente um Zorba, ele não está longe de ser um Buda. Ele viajou a metade do caminho. E a primeira metade do caminho é a mais difícil porque todas as religiões estão contra. Todas as religiões arrastam você para outro lugar, longe da primeira metade; e uma vez sendo arrastado para uma outra direção, você nunca poderá ser um Buda — porque apenas este caminho vai até Buda.

Zorba é o caminho para Buda.

Osho, em "O Livro do Homem"
Imagem por Joe Shlabotnik

11 comentários:

Anônimo disse...

eu queria fazer amor com um monte de mulher...
: (

Anônimo disse...

uma de cada, é lógico!

Anônimo disse...

Espero que o moderador não exclua meus dois textos acima. Parece brincadeira da minha parte mas foi apenas desabafo...

Eugenia disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Eugenia disse...

Muitos de nós deixamos o Zorba no inconsciente, que vem tona somente em nossos momentos de êxtase.

Projeto Ser disse...

Zorba faz parte de minha formação e com ele aprendi que se pode dançar qdo se está triste porque a própria dança ajuda a elaborar a nossa tristeza. Com zorba aprendi a buscar o meu prazer e a essencia do meu ser sem culpas ou amarras impostas pela sociedade. É óbvio que tenho muito que aprender com Zorba mas tenho certeza que a leitura deste livro me fez uma pessoa mais livre e portanto uma pessoa melhor. Obrigada Kazantzakis, Obrigada Osho pelas suas sabias palavras a respeito de Zorba.

♥IVETE♥ disse...

É essencial ler Osho, tanto q vou reler Zorba!
Abraços!

Celylua - O blog das Letras disse...

Olá,boa noite!
Saudades literárias, rsrsrs.
Visitar o seu blog é o mesmo que receber a luz das estrelas dos céus, adoro!!!
Deus abençoe sua vida infinitamente!
Desejo pra você e sua família, votos de feliz ano novo!
Que este ano de 2010, seja repletos de saúde, paz, amor e grandiosas vitórias...
Porém, não somente no ano de 2010, mas sim em todos os seus dias...
Que todos os seus sonhos se realizem!
Beijos de poesias...
Com apreço e carinho de sempre...
CelyLua.

EU SOU NEGUINHA disse...

Neste novo ano...
seja fã da verdade,
e fiel aos seus passos.
Adoce sorrisos !
Leia olhares...
Seja um pouco anjo,
um pouco mágico.
Ame simples e sonhe sempre!!!
beijos, feliz 2010 =)

tudoroger disse...

"Zorba é a parte não vivida de toda a pessoa assim chamada religiosa." [concordo, fato]
Obrigado... adorei conhecer esse site. Conheço Osho hámuito tempo mas n conhecia ainda aqui. Fiquei surpreso e maravilhado! Já sou um seguidor.
Roger [Prem Purantana]

Hod disse...

Olá Murilo,
Passando e desejando-lhe

Feliz 2010,

Forte Abraço com infinitas bençãos!!

Alôha,

Hod.

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