Este bolo está uma delícia!

O amor é muito raro. Tocar o cerne de uma pessoa é enfrentar uma revolução, pois, se você quiser tocar uma pessoa em sua essência, terá de deixar que essa pessoa toque a sua essência também. Você terá que ficar vulnerável, absolutamente vulnerável, aberto.

É um risco. Deixar que alguém toque a sua essência é arriscado, perigoso, porque você nunca sabe o que essa pessoa fará com você.

E depois que todos os seus segredos forem devassados, depois que tudo o que você esconde for descoberto, depois que você estiver completamente exposto, o que a outra pessoa vai fazer nunca se sabe. O medo aparece. É por isso que nunca nos abrimos.

Basta que haja familiaridade para que você ache que o amor aconteceu. Periferias se encontram e achamos que nos encontramos. Você não é a sua periferia. Na verdade, a periferia é a fronteira onde você termina, só a cerca ao seu redor. Não é você! A periferia é o lugar onde você termina e o mundo começa.

Mesmo casais que vivem juntos há muitos anos podem ser meros conhecidos. Podem não se conhecer de verdade. E quanto mais você vive com uma pessoa mais esquece que a essência continua intocada.

Então a primeira coisa a ser entendida é: não confunda familiaridade com amor. Vocês podem estar fazendo amor, podem se relacionar sexualmente, mas o sexo também é periférico. A menos que as essências se encontrem, o sexo é apenas o encontro de dois corpos.

E o encontro de dois corpos não é um encontro. O sexo também continua a ser familiaridade — física, corporal, mas ainda é só familiaridade. Você só consegue deixar alguém conhecer a sua essência quando não está com medo, quando não teme.

Existem dois tipos de vida: uma norteada pelo medo e a outra norteada pelo amor. A primeira talvez nunca o conduza a um relacionamento profundo. Você vive com medo, e o outro não tem permissão, não tem aval para chegar até você, para tocar a sua essência. Você dá essa permissão ao outro até certo ponto, mas depois disso uma parede se ergue e a coisa para ali.

A pessoa norteada pelo amor é aquela que não tem medo do futuro, não tem medo do resultado ou da consequência; ela vive aqui e agora. Não se preocupa com o resultado; quem se preocupa é a mente norteada pelo medo. Não pensa no que vai acontecer fora dela. Contenta-se em ficar aqui e agir de corpo inteiro. Não calcula.

O homem norteado pelo medo está sempre calculando, planejando, fazendo arranjos, garantindo.Ele perde a vida inteira fazendo isso.

Ouvi falar sobre um velho monge zen:

Ele estava em seu leito de morte. Seu último dia chegara e ele declarou que naquela noite não estaria mais ali. Então seus seguidores, discípulos e amigos começaram a vir. Havia muitas pessoas que o amavam, todas elas começaram a chegar; pessoas chegavam de todos os lugares.

Um dos seus discípulos mais antigos, quando ouviu que o Mestre ia morrer, correu para o mercado. Alguém perguntou:

— O Mestre está morrendo em sua cabana e você está indo ao mercado?

— Eu sei que meu Mestre adora um certo tipo de bolo — respondeu o discípulo. — Então estou indo comprar o bolo.

Foi difícil encontrar o bolo. Mas à noite, quando finalmente conseguiu, ele saiu correndo com a guloseima na mão.

Todo mundo estava preocupado — era como se o Mestre estivesse esperando por alguém. Ele abria os olhos, olhava em volta e os fechava novamente. Quando o discípulo chegou, ele disse:

— Bem, então você chegou. Onde está o bolo?

O discípulo mostrou o bolo, muito contente pelo mestre ter perguntado dele.

Nos estertores da morte, o mestre pegou o bolo na mão... mas a mão não tremia... Ele era muito velho, mas a mão dele não tremia. Então alguém perguntou:

— O senhor é muito idoso e está à beira da morte. O último suspiro logo o levará, mas sua mão não treme.

— Eu nunca tremo — respondeu o Mestre —, pois não existe medo. Meu corpo ficou velho, mas eu ainda sou jovem, e permaneço jovem mesmo quando o meu corpo está morrendo.

Então o Mestre deu uma mordida no bolo e começou a mastigar ruidosamente. E então alguém perguntou:

— Qual é a sua última mensagem, Mestre? O senhor nos deixará em breve. O que gostaria de nos lembrar?

O Mestre sorriu e disse:

Ah, este bolo está uma delícia!

Este é um homem que vive no aqui e agora. Este bolo está uma delícia. Mesmo a morte é irrelevante. O instante a seguir é destituído de significado. Este momento, este bolo está delicioso.

Se você consegue ficar neste momento, neste exato momento, neste presente, na plenitude, então você só pode amar.

Osho, em "Coragem: O Prazer de Viver Perigosamente"
Imagens por Rubyran

9 comentários:

markito disse...

— Ah, este bolo está uma delícia!

o amor só existe no presente,
por isso que ele nunca começa e nem nunca acaba,
simplesmente existe!

Fiquem na paz!

Veronica Kraemer disse...

Lindo!!!
Este bolo está uma delícia!!!
Boas Festas, depois se puder passe no meu blog, tem Cartão de Natal!!!
Beijos
Vero:)

GONIO disse...

Que mensagem fantástica e inspiradora!!
Assim, não há lugar para a ansiedade do futuro. O momento é aqui e agora.

Roberto Ney disse...

Este mês o Ó Com Copo comemora 1 ano e é muito bom ter seu Blog fazendo parte desse nosso vórtice de palavras...

"Todo indivíduo possui um potencial criador incomensurável. Um vórtice de idéias e ideais que se misturam ao acaso. Letras, palavras, sons e silêncio. Escrever é compartilhar sentimentos. Então, façamos desse vórtice um devorador de emoções. Escrevam e compartilhem."

Boas Festas!
E que 2010 seja um ano de muitas inspirações!

Roberto Ney ( Blog Ó Com Copo).

Fernanda Tomaz disse...

Qquer palavra de Osho me faz persistir em viver no Aqui e Agora!!!

Rener Brito disse...

Passando só para dizer que desejo a você e toda família do Blog Palavra de Osho, todas as felicidades.

Felipe disse...

Incrível, incrível e incrível! Não tenho palavras pra descrever o que estou sentindo agora.
Hoje é meu aniversário e esse bolo foi a melhor surpresa que eu poderia receber. Não faz idéia da luz que isso me deu, não faz mesmo.

Minha eterna gratidão pelos ensinamentos que colhi neste blog pelo ano inteiro e pelo melhor presente de todos! Muito obrigado, do fundo do meu coração.

Sonia Maria Mattoso de Moura disse...

Muito bom o importante é aquí e agora, não importa o que vai acotecer adiante fantástico mas o bolo que o mestre comeu, foi amor.... obrigada

Anônimo disse...

Este texto esta uma delicia!! =]

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